O Brasil conservador já influencia a Netflix

A Netflix percebeu um movimento que a Globo já sacou há algum tempo — e começou a agir. Na Rio2C, a empresa norte-americana anunciou cinco novos originais brasileiros. Entre eles, o primeiro “melodrama”. Mas o que me chamou a atenção foi “Os Crentes”, um especial de comédia sobre um grupo de amigos evangélicos. 

Em 2024, a Globo já mostrava que estava de olho nisso. Na pesquisa Brasil no Espelho 2023, apresentada na Unlock CCXP, detalhou que 78% dos jovens de 16 a 24 anos têm uma religião.

Já na edição passada do evento, a empresa trouxe ainda mais. A porcentagem de pessoas ouvidas na pesquisa que se autodeclarou evangélica saltou de 15% em 2000 para 31% em 2023. Enquanto isso, a de católicos caiu de 74% para 51%, e a dos que não possuem religião foi de 8% para 14%.

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Outro ponto importante: 96% concordam que a família é a coisa mais importante da vida. Em ordem de importância, perde apenas para saúde e bem-estar. Vale lembrar que esse conceito varia bastante: 21% dos lares têm pai ausente.

Na prática, a sociedade brasileira mudou bastante nas últimas duas décadas: 51% das pessoas afirmaram estar cansadas, ansiosas e/ou com medo. Cerca de ¾ dos brasileiros dizem que só podem contar consigo próprios para conquistar o que desejam. 

É aqui que entra a fé, e foi justamente isso que diversas igrejas e denominações cristãs perceberam — e cresceram.

Esse contexto criou uma sociedade que valoriza a família — seja qual for a sua configuração —, que busca prosperidade financeira, que tem receio em relação ao amanhã e que incorporou uma visão conservadora sobre diversos valores.

Se você reparar bem, muitas marcas, instituições e até influenciadores de sucesso dos últimos tempos se valem de um ou mais desses pontos.

Nos últimos anos, a Globo vem aplicando na prática o que aprendeu com a pesquisa: se, de um lado, acena com um casal como Loquinha, do outro trouxe uma novela sobre música sertaneja, abraçou contextos conservadores e abriu as portas para o gospel.

“Os Crentes” da Netflix

Por muito tempo, a Netflix seguiu um caminho mais progressista em seus conteúdos — o que gerou certa rejeição nas redes sociais por parte do público conservador brasileiro. 

Contudo, globalmente, isso começou a mudar nos últimos anos. A Netflix parece ter entendido que, para continuar crescendo, precisaria conversar com todos os públicos. Chegaram até a modificar pontos do seu famoso Culture Deck. “Para entreter o mundo, precisamos ser ousados e ambiciosos. Isso significa abraçar a emoção do que está por vir — mesmo quando for desconfortável”, agora diz o documento.

“Os Crentes” aparenta ser a grande virada de chave no Brasil. Pensado para os cristãos daqui, o nome é praticamente uma bandeira para esse público. “É mais um ângulo que exploraremos para fortalecer esta oferta [de programação com foco evangélico]”, definiu Elisabetta Zenatti, VP de conteúdo no Brasil, para a Variety.

Como vimos, deve ser só o começo.