A Netflix concorre com o YouTube no mercado de streaming? Depende para quem você pergunta. É que o assunto virou peça-chave na disputa pela Warner Bros. Discovery.
Vale uma explicação: conceitualmente, nem todo streaming é igual. A Netflix é a pioneira do SVOD (subscription video on demand), ou seja, dos serviços por assinatura. Depois vieram Disney+, Paramount+, HBO Max e afins.
Existem outros modelos de negócio, como o AVOD (ad-supported, ou seja, grátis com anúncios), o TVOD (transactional, aquele de aluguel e compra) e assim vai.
O YouTube surgiu como algo diferente, como uma plataforma de compartilhamento de vídeos. Floresceu com o chamado UGC (user-generated content) e com publicidade, cuja receita é dividida com os produtores de acordo com o desempenho.
➔ Leia também: Warner reabre disputa pela venda entre Netflix e Paramount
O argumento da Paramount Skydance na disputa pela Warner Bros. Discovery é que uma união entre a Netflix e a HBO Max (que é da WBD) juntaria a quarta colocada entre os SVODs com a líder, que, combinadas, poderiam chegar a mais de 400 milhões de lares em todo o mundo — o dobro do que se estima para a segunda colocada, a Amazon.
Acontece que, nos últimos anos, as linhas que separam esses mercados ficaram mais tênues. Netflix e concorrentes agora possuem planos com publicidade, enquanto o YouTube tem a opção de assinatura — entre outras, incluindo aluguel e compra de filmes. Os chamados youtubers se profissionalizaram, enquanto grandes grupos de mídia passaram a investir na plataforma do Google.
O resultado disso aparece na audiência. De acordo com a Nielsen, o YT é líder entre todos os streamings nos EUA, com 12,5% da audiência de TV. A Netflix tem 8,8%, enquanto os serviços da WBD contam com 1,4%. No Brasil, considerando todas as telas, a plataforma do Google tem 22,4% de audiência de vídeo segundo a Kantar Ibope, contra 6% da Netflix e 0,5% da HBO Max.
É nisso que a Netflix se apoia para argumentar que a fusão não criará um monopólio. Para eles, o foco no mercado de streaming é na atenção, e não no modelo.

Contudo, a preocupação na indústria norte-americana é que a união Warner-Netflix tire um comprador dos mercados de cinema, TV e streaming. Afinal, UGC seria outra coisa.
Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, agora está peregrinando pela imprensa dos EUA justamente para dizer o contrário.
Quem concorre com a Netflix?
No podcast The Town, de Matthew Belloni, Sarandos afirmou com todas as letras que perdeu recentemente disputas pelos direitos de transmissão do São Paulo Game da NFL e do Oscar justamente para o YouTube. Além disso, garantiu que a Warner continuará atuando com times separados para TV, cinema e HBO — inclusive produzindo e licenciando para terceiros — e que manterá a janela de exclusividade nos cinemas de 45 dias.
Tem mais: afirmou que uma união entre Paramount e Warner Bros. é que cortaria empregos e tiraria um grande estúdio do mercado.
➔ Leia também: YouTube e Netflix vivem a segunda guerra do streaming
David Ellison, CEO da Paramount Skydance, contra-ataca. Em carta ao comitê do Senado, o executivo afirmou que o SVOD “opera de forma substancialmente diferente de plataformas grátis, com conteúdo gerado pelos usuários” e que o YouTube tem “pouca ou nenhuma sobreposição em termos de conteúdo que também esteja disponível na Netflix”.
“Se os reguladores aceitassem a definição ampla de mercado proposta pela Netflix, isso efetivamente acabaria com qualquer aplicação significativa das leis antitruste nos setores de mídia e tecnologia”, escreveu Ellison. “Toda plataforma de rede social poderia alegar competir com qualquer serviço de mídia, e nenhuma transação jamais geraria preocupação, independentemente de quão concentrado um mercado realmente se tornasse.”
Nas entrelinhas, ele afirma que o SVOD precisa continuar existindo como categoria para justificar fusões próprias. Se a tese da atenção vencer, qualquer big tech poderá comprar um estúdio. Curiosamente, a fortuna de David veio do pai, Larry Ellison, que fundou Oracle – do ramo de tecnologia.
Pois é: a segunda guerra do streaming envolve até a definição sobre qual é, afinal, o campo de batalha…
E, para você? YouTube e Netflix são realmente concorrentes no mercado de streaming?
