O que está em jogo nas discussões sobre IA em Hollywood não é tecnologia. É poder. Quem decide, quem cria, quem recebe por isso e quem fica de fora quando o processo muda.
Foi isso que me chamou atenção ao acompanhar a reação da indústria a um nome improvável para esse debate: James Cameron. Um dos cineastas mais respeitados da história, ele ganhou manchetes ao entrar como sócio de uma empresa de efeitos com inteligência artificial — e ao falar em “diminuir pela metade” o custo dos blockbusters. Falas que passaram a circular entre seus pares, que votam no Oscar.
Pegou mal. Cameron passou 2025 tentando recalibrar o discurso, indo contra a tecnologia, mas talvez tenha sido tarde. “Avatar: Fogo e Cinzas”, independentemente da qualidade, é o primeiro longa do diretor desde “Titanic” a ficar fora da categoria de Melhor Filme.
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Isso mostra como reputação, discurso e tecnologia começaram a se misturar em um território sempre sensível: o reconhecimento entre profissionais.
A partir daí, o tema se espalha. Recentemente, Matthew McConaughey e Timothée Chalamet falaram abertamente sobre possíveis categorias para obras feitas com IA — e sobre o desconforto de uma indústria que parece caminhar sem saber que posição assumir. “Pisar em ovos” virou regra: entusiasmo demais afasta criativos, crítica demais pode fechar portas com estúdios que já enxergam ganhos de custo e escala.
Essa tensão chega ao trabalho — e aos sindicatos. Com acordos coletivos vencendo em 2026, a possibilidade de uma nova greve volta ao horizonte. A discussão sobre imagem, voz e autoria deixa de ser teórica quando passa a definir pagamento. Roteiristas, por exemplo, veem na IA uma ameaça mais direta ao ofício – e são eles que costumam liderar esses conflitos.
Estúdios vs. Seedance
Enquanto isso, os estúdios vivem a própria ambiguidade. Reagem a ferramentas que usam personagens sem autorização — como o Seedance 2.0, do vídeo viral simulando Tom Cruise lutando contra Brad Pitt —, mas firmam acordos para explorar essas mesmas possibilidades de forma controlada. A discussão não é se a tecnologia será usada, e sim sob quais regras.
É nesse cenário que as premiações ganham peso. O BAFTA ajusta critérios, sindicatos sobem o tom e o calendário coloca negociações e Oscar praticamente lado a lado. O risco não é confronto explícito, mas algo mais sutil: a principal vitrine da indústria virar também espaço de disputa narrativa sobre o futuro do trabalho criativo.
No fim, a sensação é clara: enquanto Hollywood debate limites, a tecnologia avança. E esse descompasso tem consequências econômicas e culturais — inclusive com concorrência internacional acelerando o uso dessas ferramentas.
Sim, estou falando da China — o Seedance, por exemplo, é uma criação da ByteDance, a mesma do TikTok.
Escrevo sobre tudo isso na coluna Na Sua Tela, no UOL. Clique aqui para ler.
