O retorno do investimento público de R$ 7,5 milhões em “O Agente Secreto”

“‘O Agente Secreto’ é um péssimo investimento público em cinema para o Brasil porque não deu lucro”. Li, em linhas gerais, algo nesse sentido no LinkedIn há alguns dias. Resposta curta: não, não é.

Não entrei na discussão do post — afinal, apenas traria palco para quem não quer conversar a partir de fatos. Mas acredito que vale, sim, expor os benefícios do investimento na cultura.

Primeiro, os dados. De acordo com apuração do G1, “O Agente Secreto” teve um orçamento de R$ 28 milhões. Desses, R$ 13,5 milhões vieram de capital nacional — incluindo R$ 7,5 milhões públicos, via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Já a comercialização do longa custou R$ 4 milhões: R$ 750 mil advindos do FSA e R$ 3 milhões bancados por meio da Lei do Audiovisual, que permite a pessoas físicas e jurídicas destinarem parte do Imposto de Renda a obras audiovisuais, selecionadas pela Ancine, por meio de patrocínio.

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O montante do Fundo Setorial não é um empréstimo: na prática, o Estado se torna sócio da produção — e, se houver lucro, recebe por último os valores, no formato previsto no edital. Dessa forma, outros longas são financiados.

Até o momento, “O Agente Secreto”, apontava a crítica que eu li, rendeu “pouco” de bilheteria. No último número que conferi, está em R$ 1,7 milhão. Cerca de 50% do valor fica com o exibidor, com o restante indo para a distribuidora.

A “conta não fecha”, então? Não. Vamos analisar o investimento público em cinema:

  • O Estado não é uma empresa. Nem deve ser. O fim principal de um país não é gerar lucro, mas sim bem-estar social, criar empregos, fomentar a cultura, os investimentos etc.
  • O orçamento do audiovisual é uma fração mínima do gasto público e não compete diretamente com políticas essenciais.
  • O cinema é soft power. Um filme com destaque internacional — ainda mais com quatro indicações ao Oscar — coloca o Brasil na boca do mundo, incentiva novos investimentos no país, atrai turismo e pode até nos favorecer em disputas políticas e culturais.
  • “O Agente Secreto” não tem como única fonte de renda os cinemas brasileiros. Em todo o mundo, a produção já rendeu US$ 6,8 milhões (R$ 35,8 milhões) — sendo 41% apenas nos EUA. Esse valor, vale ressaltar, é dividido também pelos distribuidores locais, agentes de vendas, etc. 
  • Depois que sair de cartaz, a exploração da produção continua. Vêm a janela de vídeo sob demanda transacional, o streaming por assinatura (já vendido para a Netflix), canais fechados, abertos e outros. Um título indicado ao Oscar tende a se transformar em cult, gerando público e renda por décadas.
  • Além disso, “O Agente Secreto” tem potencial para se tornar uma propriedade intelectual, com produtos derivados. O Chico Rei, por exemplo, já lançou uma linha de camisetas.

Fundos, descontos em impostos e outros incentivos são comuns em várias regiões produtoras de cinema e TV em todo o mundo — em lugares como Londres, Nova York, Paris, Nova Zelândia, Atlanta e tantos outros.

Agora, nem todo retorno cultural é rastreável obra a obra — e nem precisa ser para justificar política pública.

Kleber Mendonça Filho recebe o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro por O Agente Secreto. Destaque para o Brasil vem por meio de investimento público no cinema
Kleber Mendonça Filho recebe o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro por O Agente Secreto (crédito: divulgação / Golden Globes)

Na Coreia do Sul, isso virou um case enorme. O K-pop explodiu em todo o mundo, ditando a cultura e atraindo investimentos. Um estudo recente da NOL Universe, publicado agora em janeiro, fala em um impacto de US$ 966 milhões (R$ 5,1 bilhões) na economia sul-coreana nos últimos cinco anos, apenas por conta do turismo que esse fenômeno gera.

Para dar uma dimensão disso: segundo a Embratur, o turismo internacional injetou R$ 7 bilhões na economia brasileira em 11 meses de 2025. Um movimento cultural nacional sozinho leva cerca de R$ 1 bilhão por ano para um país 85 vezes menor que o Brasil.

Esse é o verdadeiro lucro para o qual deveríamos estar olhando – mas que, para isso, precisa se tornar um investimento de estado por décadas. Precisamos, também, aperfeiçoar os mecanismos que temos para investimento público em cinema, mas esse é outro papo.