Quem diria que Hollywood faria Donald Trump e o Partido Democrata finalmente concordarem em alguma coisa? Depois de defender uma tarifa para filmes produzidos no exterior — sem explicar direito o que consideraria “estrangeiro” —, o presidente dos Estados Unidos passou a apoiar outro caminho.
Nesta segunda-feira, o ex-apresentador de O Aprendiz defendeu publicamente, em sua rede social, a adoção de incentivos fiscais federais para “fazer a indústria de produção de filmes e televisão GRANDE NOVAMENTE, talvez MAIOR DO QUE NUNCA” (sic).
➔ Leia também: Amazon dobra aposta em originais enquanto Brasil debate regras do streaming
Não seria exatamente a reinvenção da roda. É o que países como Reino Unido, Canadá e Austrália já fazem — e uma das razões pelas quais conseguiram tirar produções dos EUA. A competição também ocorre internamente, com estados como a Geórgia atraindo filmagens que antes seriam realizadas na Califórnia.
Trump afirmou que pedirá a republicanos e democratas que trabalhem juntos no Congresso para elaborar uma legislação. Ele não informou qual seria o percentual do incentivo. Um consenso médio na indústria, segundo o Deadline, tem girado em torno de 25%.
Na prática, o presidente parece finalmente ter dado ouvidos ao ator Jon Voight, seu amigo e um dos nomes que ele designou como “embaixadores especiais” para Hollywood.
O assunto ganhou força por causa da crise no principal centro da indústria audiovisual mundial. Quem me acompanha por aqui sabe que Los Angeles já não é tão atrativa para filmagens quanto foi no passado. Isso, somado à nova economia do setor e às mudanças de comportamento e produção provocadas pelo streaming, reduziu o número de dias de trabalho nos sets da região.
No início dessa discussão, Trump também parecia preocupado com o soft power americano — sem usar essa expressão, é claro. Em maio, ao defender uma tarifa de 100% sobre filmes feitos fora dos Estados Unidos, afirmou que o assunto era uma questão de “segurança nacional”.
Curiosamente, Trump — que representa uma fração mais “acalorada”, digamos assim, dos republicanos — agora vai ao encontro do que defendem os sindicatos de atores (SAG-AFTRA), diretores (DGA) e roteiristas (WGA), além da Motion Picture Association.
E até de Adam Schiff, senador pela Califórnia que atuou como promotor no primeiro processo de impeachment do próprio Trump, em 2020.
“Estou totalmente de acordo com o presidente. O Congresso deveria adotar e aprovar imediatamente um incentivo fiscal federal ao cinema para trazer de volta esses empregos bem remunerados que perdemos para outros países”, escreveu Schiff no X. “Vamos trabalhar juntos — republicanos e democratas — para conseguir isso e trazer a magia do cinema de volta aos Estados Unidos.”
Resta saber quanto tempo essa união vai durar — e se os EUA finalmente terão um programa federal de incentivo à produção audiovisual. Afinal, os dois lados podem concordar com a ideia sem necessariamente concordar sobre como ela funcionaria, ou a quais produções se aplicaria.
