Um dos grandes problemas de “O Diabo Veste Prada 2” é que o filme ignora completamente o erro de Miranda Priestly – e de todos os líderes da mídia que ocupam a mesma posição que ela.
Continuação do longa-metragem de 2006, o novo filme é um sucesso – já angariou uma bilheteria mundial de US$ 433 milhões. A crítica também gostou, com 73% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Eu até que achei divertido, mas o longa pisa na bola ao ser extremamente ingênuo.
➔ Leia também: Morre Ted Turner, o contraditório “Capitão Planeta” da mídia
Para quem não assistiu, vale o contexto – sem (muitos) spoilers. A história começa com Andy Sachs (Anne Hathaway) frustrada após ver ela e toda a redação perderem o emprego. “O jornalismo ainda importa, porra!”, grita a jornalista.
Sem saída, ela acaba indo parar na redação da Runway, agora como editora na equipe da Miranda (Meryl Streep). E a revista está aos cacos: edição impressa encerrada, queda nos acessos do site e, como diz Nigel (Stanley Tucci), estão produzindo vídeos de luxo para serem assistidos enquanto o espectador está no vaso sanitário.
Aí surge uma saga para salvar a publicação. Acontece que o roteiro trata a decadência da Runway quase como uma fatalidade tecnológica.
Essa queda é história velha porque foi vivenciada por todos os jornalistas. Quando veio o digital, publishers gastaram fortunas para fazer o mesmo produto de antes, mas em um ambiente que não dava o mesmo retorno financeiro.
Então surgiram Facebook, Twitter e Google. E a mídia embarcou de cabeça em um modelo de aquisição de leitores que parecia mágico. Ok, não foi uma decisão só da liderança na redação: executivos, acionistas, consultorias e o mercado publicitário inteiro compraram a ideia. O problema é que, no processo, treinamos o público a abandonar o impresso – que dava dinheiro – e até os próprios portais, entregando audiência de bandeja para as big techs.
Quando a torneira começou a fechar, a indústria dobrou a aposta. Encheu os sites de banners. O CPM caiu mais e mais, enquanto a experiência do usuário foi descarga abaixo.
Dava para a Miranda ter enxergado o buraco. Mas ela nunca teve poder real para isso, nem foi uma visionária empresarial. Estava mais preocupada com sua própria promoção.

Claro, o público também quis isso. Era conveniente. Mas a mídia ajudou a construir exatamente esse comportamento – e depois descobriu que não controlava mais a distribuição do próprio conteúdo.
Aí chegamos em 2026. O ChatGPT resume tendências da moda, avalia e cria looks. A busca do Google resume a última polêmica envolvendo famosos sem precisar clicar em nenhum link. As redes sociais já quase não mostram links externos, mantendo o usuário preso em um feed vertical infinito.
Por isso a edição impressa da Runway acabou, Miranda. Porque enquanto você reclamava do café, queria reservas impossíveis em restaurantes ou ler um livro inédito, o mercado ao seu redor desmontava – e ninguém criou um modelo sustentável para substituí-lo.
O novo filme não tem final feliz. Nem resolve nenhum desses problemas. Pior: cria outro, tal qual estão fazendo as Mirandas da vida real.
Eu só vou assistir a um “O Diabo Veste Prada 3” se, no mínimo, trouxerem a Miranda escrevendo no Substack.
