O Mickey está sob pressão. É que foi divulgou nesta segunda, 2, o balanço da Disney do último trimestre de 2025. Para quem lê só o número final da tabela, a reação tende a ser positiva: a receita cresceu. Mas, na prática, o buraco é mais embaixo.
Na realidade, o grupo está mantendo a máquina girando ao custo de testar vários limites ao mesmo tempo — o tipo de coisa que o Mickey faz há décadas, apesar dessa cara de bom-moço.
Começa pela base do sistema. A TV paga continua caindo, o que corrói uma fonte histórica de receita recorrente. A ESPN, grande âncora desse modelo legado, segue sendo um fenômeno de audiência — os esportes ainda dominam a televisão —, mas o negócio ficou mais caro, mais disputado e menos previsível. Direitos sobem, a distribuição vira campo de batalha (vide o caso da YouTube TV, que custou cerca de US$ 110 milhões ao grupo), e a relevância cultural já não se traduz automaticamente em margem.
A boa notícia é que o cinema está funcionando. “Zootopia 2” e “Avatar: Fogo e Cinzas” passaram de US$ 1 bilhão em bilheteria global. O problema é o timing financeiro disso: filmes desse porte exigem produção cara, marketing pesado e amortização acelerada. Fortalecem a propriedade intelectual no médio e longo prazos, mas pressionam custos antes de devolver lucro. Cinema hoje é criação de IP, e não dinheiro rápido.
➔ Leia também: O retorno do investimento público de R$ 7,5 milhões em “O Agente Secreto”
Esse mesmo cinema, no entanto, cumpre outro papel crucial: vira marketing global para o streaming. As boas bilheterias funcionam como uma vitrine gigantesca para o Disney+. É ali que as franquias continuam a brilhar depois da janela do Theatrical.
O resultado aparece nos números deste balanço da Disney. O SVOD cresceu 11% em receita e gerou US$ 450 milhões de lucro operacional no trimestre, com margem de 8,4%, caminhando para a meta de 10% no ano. Isoladamente, o streaming já funciona. O paradoxo é que ele ainda está dentro de um segmento, o de Entertainment, que carrega cinema, TV linear em queda, marketing e tecnologia — e, por isso, segue vendo seu lucro operacional diminuir ao ter que “pagar outras contas”.
Os parques no balanço da Disney
Todo esse fluxo desemboca onde a Disney realmente captura valor hoje: parques e experiências. Afinal, todo mundo quer transformar em emoção real o amor pelos personagens e histórias. Só que o Mickey vem adotando um jogo arriscado.
O lucro recorde do segmento não vem de muito mais gente entrando, mas de cada pessoa pagando mais. Ingressos mais caros, serviços adicionais, experiências premium, cruzeiros com valores agressivos: a Disney está monetizando sua marca como nunca. O resultado é claro: a frequência cresceu só 1%, enquanto o gasto por visitante avançou 4%.
É verdade que a Disney vem conscientemente reduzindo o volume para maximizar margem há alguns anos. Ter menos gente visitando em experiências mais premium faz parte da estratégia. A questão é outra: será que, no longo prazo, esse equilíbrio financeiro se sustenta?
Esse é um ponto delicado. Para compensar TV paga em queda, esportes cada vez mais caros, cinema custoso no curto prazo e streaming ainda em consolidação, a Disney espreme no fim do funil, onde está o fã apaixonado e mais disposto a gastar. Não é a única a fazer isso, inclusive: virou tendência no entretenimento.

Por isso, tem crescido a atuação onde o ticket médio é alto, mas a distância da Califórnia e da Flórida dificulta as viagens — como a Ásia. “Zootopia” é hoje um dos principais motores de tráfego e gasto no Shanghai Disneyland, por exemplo.
Não por acaso, o mercado parece não ter gostado. As ações caíram cerca de 5% após a divulgação do balanço. Pode ser apenas realização de lucros, ou reflexo de outras questões — política, economia, juros. Mas também pode indicar desconforto com um sistema que depende de várias tensões funcionando ao mesmo tempo. Se uma delas falhar — consumo, turismo, preço, percepção de valor, macroeconomia — o castelo de Lego vai para o chão.
A Disney continua sendo uma das empresas mais sofisticadas do entretenimento global, seguindo o sonho de Walt, que idealizou esse flywheel — e as tensões sempre fizeram parte da estratégia. Mas talvez seja hora de o Mickey começar a colocar um pouco mais de cola nesses tijolos coloridos.
Enquanto isso, o CEO Bob Iger já teria assumido o compromisso de deixar o cargo até o fim do ano. É, Mickey… ainda bem que você não tem cabelos para arrancar.
Atualização: a Disney acaba de confirmar que Bob Iger deixa o cargo de CEO em 18 de março.
Josh D’Amaro, justamente o chefe da divisão de parques, vai assumir o posto. Mais detalhes aqui.
