A Paramount quer trazer a MTV de volta. Mas para quem?

“Eu quero a minha MTV!”: o slogan que marcou época na TV – e que até virou música do Dire Straits – pode voltar. É que, de acordo com Lucas Shaw, da Bloomberg, a Paramount Skydance está querendo reviver a icônica marca.

Segundo o jornalista, o grupo de mídia controlado por Larry Ellison estaria conversando com líderes da indústria da música para adquirirem uma fatia do canal, investindo dinheiro e ajudando a revitalizar a propriedade.

A intenção é que esse novo parceiro também traga valor para a união, seja por meio de direitos musicais, conexão com artistas, outras propriedades estratégicas etc. A ideia é usar isso para impulsionar o streaming Paramount+. 

Se der certo, a iniciativa pode servir de exemplo para outros negócios do grupo. 

Quem me acompanha sabe: sou especialmente crítico ao que foi feito com a MTV na última década.

O canal surgiu nos anos 1980 com essa aura de rebeldia da juventude baseada na música e, principalmente, no videoclipe – ajudando a sedimentar uma linguagem que mudou para sempre o audiovisual.

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Depois, a MTV começou a alçar voos ainda maiores, assumindo riscos e criando tendências – como quando entrou no universo das animações adultas. Nos anos 2000, embarcou nos reality shows, sempre com uma conexão com o público jovem.

Nos últimos anos, porém, o canal viveu a agonia da TV paga. A ViacomCBS (hoje, Paramount) rebaixou a programação da MTV principal para intermináveis reprises, além de criar canais secundários temáticos com a profundidade de uma playlist do Spotify. Tudo isso virou apenas uma fonte de receita do fee pago pelas operadoras.

Acontece que a MTV nunca conseguiu fazer – de verdade – a transição para o digital. Isso enquanto o TikTok surgiu a partir de uma plataforma de música.

Hoje, a música e todo o entretenimento não precisam mais da MTV.

No Brasil, a MTV e outros canais da Paramount foram retirados da TV paga em 31 de dezembro
No Brasil, a MTV e outros canais da Paramount foram retirados da TV paga em 31 de dezembro

Pela primeira vez, vemos (de forma pública) algo que finalmente vai em busca desse legado. A união com alguém da indústria musical faz sentido: busca novamente aquilo que foi a base da marca no passado e que surfa em uma indústria que renasceu. Resta saber se vão conseguir equilibrar negócios com a solução de um problema real para usuários e para a indústria — ou se vão criar algo realmente disruptivo.

E o principal: se ainda dá tempo de salvar a MTV, uma marca que tem pouca – ou nenhuma – relevância para os jovens de hoje.

Mas esse é apenas o bicho da nostalgia me atiçando. Toda essa iniciativa pode resultar apenas em uma forma de tirar leite de pedra do que ainda resta de um nome tão icônico, promovendo-a apenas como uma iniciativa de licenciamento sem lastro no mundo atual.

Afinal, não há mais um vórtice da cultura jovem como a MTV foi. Temos fandoms fragmentados e nichos de público. Quem tenta ser hegemônico corre o risco de ser genérico.

Pensar que, lá em 1987, o Red Hot Chili Peppers cantava:

“Ponham a gente na MTV.
É tudo que a gente precisa.
Imploramos de joelhos.
Por favor, por favor, por favor, por favor.”

Será que a internet matou o astro do vídeo?