A dupla vitória no Globo de Ouro ajuda “O Agente Secreto” no Oscar deste ano? Sim e não. Precisamos acabar com certas “lendas” que existem sobre isso.
Botando os pingos nos is: a cerimônia realizada neste domingo, 11, não tem qualquer relação direta com a maior premiação do cinema mundial, nem funciona como uma prévia dela. Mas afirmar apenas isso também não é toda a verdade.
O Golden Globes, como é chamado em inglês, foi criado em 1944 pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, da sigla original). Desde a edição de 2024, após uma série de polêmicas nos bastidores, o prêmio passou a ser organizado pela Dick Clark Productions e pela Penske Media Corporation.
Hoje, quem vota no Globo de Ouro são cerca de 300 jornalistas de todo o mundo — sem qualquer relação com a antiga HFPA. Há diversos profissionais competentes ali, que valorizo muito — como o amigo Matheus Mans.
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Por isso, essa premiação sempre refletiu uma mistura de olhar estrangeiro com a indústria norte-americana, mas não necessariamente a forma como Hollywood se enxerga.
No Oscar, o jogo é outro. A organização fica a cargo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que tem mais de dez mil membros — praticamente todos trabalhando diretamente na sétima arte norte-americana, ainda que a presença de estrangeiros tenha crescido na última década.
Ou seja: é um corpo votante totalmente diferente e muito mais amplo. Mais do que isso, trata-se de um prêmio de honra ao mérito concedido pelos próprios pares.

Quer dizer que a vitória de “O Agente Secreto”, escolhido como Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Ator (com Wagner Moura) no Globo de Ouro, não adiantou nada? Não é bem isso. Hollywood estava assistindo à premiação, e as estatuetas recebidas neste domingo reforçam a campanha e a projeção do longa-metragem.
Essa é uma oportunidade de ouro – com perdão do trocadilho – para ganhar visibilidade midiática e moldar a campanha. Muita gente da Academia simplesmente não vê todas as produções do ano, e agora “O Agente Secreto” ganhou o selo de “aquele filme que ganhou o Globo de Ouro”.
Até os discursos têm peso. Kleber Mendonça Filho é um defensor do cinema tradicional — sempre foi —, mas levantar essa bandeira no Golden Globes ressoa de forma positiva entre os integrantes da Academia. No caso de Wagner, também: falar sobre memória, sobre a necessidade de memória e de valores, no atual momento político dos EUA e do mundo, ajuda muito. Foram falas cuidadosas, tomando cuidado para não cair no excesso.
Tudo isso em um momento-chave: a votação para os indicados ao Oscar 2026 começa oficialmente nesta segunda, 12, e vai até sexta, 16. O anúncio dos finalistas será no dia 22.
Seja como for, “O Agente Secreto” já fez história — e, para quem ama o cinema e a cultura brasileiras, é um grande momento para ser testemunha.
P.S.: Na minha época de Filmelier, escrevi sobre quem é que vota no Oscar e como é o processo de votação.
