A Netflix gastou 112 páginas para dizer uma coisa que não está escrita em nenhuma delas. O relatório “Efeito Netflix”, divulgado nesta semana, celebra uma década de expansão global com números que chamam a atenção: US$ 135 bilhões investidos em produções, 425 mil empregos gerados e uma contribuição para a economia mundial equivalente a quase todo o PIB anual do Chile.
Mas o documento não foi divulgado apenas para celebrar uma efeméride: ele chega justamente quando Brasil, Europa e Canadá discutem novas regulações para streaming — e a escolha de falar mais sobre PIB, turismo, produção local e impacto cultural do que sobre audiência e assinantes claramente não é casual.
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“O timing é cirúrgico”, me disse Pedro Teberga, professor da Faculdade Einstein e especialista em negócios digitais. “O relatório chega como argumento preventivo: antes de nos taxar, veja o que já geramos espontaneamente.”
O que torna tudo mais interessante é que esse movimento não acontece isoladamente.
Recentemente, a empresa começou a implementar um feed de vídeos verticais dentro do próprio aplicativo, em uma lógica muito mais próxima de TikTok, Instagram e YouTube do que da tradicional vitrine de streaming. Ao mesmo tempo, anunciou que “Nárnia” terá lançamento amplo nos cinemas (incluindo salas IMAX) em 2027 — algo quase impensável para uma empresa que passou anos tratando a janela cinematográfica como uma questão do passado.
Separados, esses movimentos parecem até contraditórios. Juntos, começam a desenhar uma Netflix que tenta se posicionar menos como plataforma de vídeo e mais como infraestrutura cultural global, disputando ao mesmo tempo atenção mobile, legitimidade institucional e influência política.
A minha coluna desta semana no UOL busca entender o que une todos esses movimentos — e por que essa mudança talvez diga mais sobre a segunda guerra do streaming do que o próprio relatório admite.
