Para Christopher Nolan, o modelo atual leva estúdios e big techs a vender o futuro para Wall Street — enquanto isso pressiona quem trabalha no presente.
Eleito recentemente presidente do sindicato dos diretores dos EUA (DGA), Nolan deu uma entrevista a veículos de trade da indústria. No papo, ele deixou claro que a entidade dificilmente aceitará um novo contrato de cinco anos com os estúdios – o habitual é de três. O acordo atual, assinado em 2023, se encerra neste ano.
Esse contrato é o acordo coletivo entre o sindicato e a AMPTP, que representa os grandes estúdios e plataformas. É ali que se definem pagamento, proteção e direitos econômicos em um setor que mudou radicalmente em menos de uma década.
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Quando Nolan rejeita a ideia de um acordo longo, ele parte de um ponto simples: ninguém consegue prever com segurança como esse modelo de negócios vai funcionar daqui a cinco anos. Streaming, publicidade, IA e consolidação de estúdios — tudo está em movimento ao mesmo tempo. Congelar regras agora significa empurrar risco para quem vive do trabalho, não para quem controla o capital.
Como bom contador de histórias, Nolan resume tudo em uma frase:
“O grande descompasso, sempre, entre as empresas para as quais trabalhamos e os nossos membros é que essas empresas são recompensadas por Wall Street por viverem no futuro — e isso não funciona para os nossos membros, porque eles não se beneficiam dessa especulação. […] Os membros vivem no presente. Nós somos pagos no presente. Precisamos pagar aluguel, comprar comida, seja o que for, no presente.”
Resumindo para quem é brasileiro: os boletos sempre vencem, todos os meses.

Por isso, Nolan insistiu muito em pagamentos residuais: não como nostalgia de um “modelo antigo”, mas como infraestrutura básica de uma indústria funcional. Na visão que ele defende, esses mecanismos sustentaram uma classe média criativa capaz de trabalhar continuamente, assumir riscos artísticos e construir carreiras longas, enquanto recebiam de tempos em tempos um cheque por trabalhos antigos. Retirá-los em nome da “inovação” não moderniza o sistema, mas sim desmonta o ecossistema.
A discussão sobre IA entra exatamente no mesmo ponto. Para o cineasta, licenciar conteúdo, automatizar processos, decidir onde entram anúncios ou como obras são distribuídas só faz sentido se o valor gerado continuar retornando para quem cria.
O peso da fala de Nolan não vem só do prestígio artístico, vem do cargo. Agora, ele não fala como cineasta individual defendendo sua obra, mas como líder eleito de um sindicato que negocia em nome de milhares de profissionais. Isso dá poder, legitimidade e consequência prática ao discurso.
E a consequência final dessa disputa todo mundo conhece — ainda que temam: uma nova greve. Curiosamente, o DGA é, historicamente, o sindicato mais propenso a fechar acordos com a AMPTP: sua única paralisação, em 1987, durou apenas 19 horas.
O Deadline Hollywood quebrou a entrevista em diversas matérias, que estão aqui.
