“O Agente Secreto” acaba de conquistar uma marca incrível para o cinema brasileiro nesta quinta, 22: quatro indicações ao maior prêmio do cinema mundial! Mas, mais do que motivo para festa nacional, o feito também representa um novo momento da Academia e de Hollywood, além de um Oscar internacional.
Nada menos que três longas-metragens de fora dos Estados Unidos estão na categoria de Melhor Filme — todos também indicados em Melhor Filme Estrangeiro. Um recorde que supera o do ano passado, quando havia duas produções internacionais entre as dez principais.
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Tem mais: além das quatro indicações para o longa brasileiro, o norueguês “Valor Sentimental” conquistou nada menos que nove; “Foi Apenas um Acidente”, duas; e “Sirât”, também duas. Assista à apresentação aqui.
É reflexo dos desdobramentos do movimento #OscarsSoWhite, que obrigou a Academia a ser mais diversa e a se abrir para a entrada de membros com outras etnias, gêneros e gerações, mas também de outras partes do mundo, incluindo o Brasil. Mas o movimento vai além.
Um Oscar internacional
Um mundo mais conectado também está obrigando Hollywood a se transformar, para manter sua relevância. E, por mais que o discurso em defesa da experiência do cinema siga forte, a Netflix tem um peso importante nesse processo.
Afinal, a plataforma de streaming criou, de forma definitiva, um canal para que produções internacionais fizessem sucesso nos EUA, educando o público norte-americano a ler mais legendas com títulos como “Narcos”, “La Casa de Papel” e “Round 6”. Está longe de ser igual ao resto do mundo, eu sei — mas é um processo, que eles fortalecem também de forma estrutural, nas engrenagens da indústria.
Em outra esfera, distribuidoras como Neon, A24, Searchlight Pictures, Sony Pictures Classics, Focus Features e a MUBI também quebraram pedras desse muro nos últimos anos.

Os primeiros sinais dessa transformação não são recentes, mas agora sua evolução pode ser entendida com mais clareza. Em 2012, a produção francesa “O Artista” ganhou quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme, sendo praticamente um longa mudo. Em 2020, “Parasita” repetiu o feito, desta vez totalmente falado em coreano.
Curiosamente, no discurso de aceitação da estatueta, Bong Joon Ho deixou claro que aqueles ainda eram exemplos isolados, pedindo que o público superasse a chamada “barreira de uma polegada que são as legendas”.
Ainda não dá para dizer que o público norte-americano — o maior mercado de cinema do Ocidente — já superou essa barreira. Mas a evolução em Hollywood é clara, incluindo na leitura e construção de soft power, construindo um (aos poucos) um Oscar internacional.
Falta ainda ampliar essa internacionalização para as estruturas da indústria. Afinal, “Valor Sentimental” traz atores reconhecidos nos EUA, incluindo uma americana. Já Wagner Moura fez nome naquele país justamente com “Narcos”. Fora que as histórias, de alguma forma, dialogam com o que ocorre nos Estados Unidos e na opinião pública de lá.
Tem mais: o sucesso na premiação passa por, antes, a chancela de festivais internacionais – ainda que eles sejam majoritariamente europeus. Por fim, é necessária ainda uma distribuidora forte, com bagagem em temporada de premiações para regar as sementes. No caso do longa brasileiro, foi a Neon.
Bom, como diz o título do filme de Paul Thomas Anderson, também indicado neste ano: uma batalha após a outra.
