O golaço da Sony no acordo bilionário com a Netflix

O acordo Sony Netflix, de mais de US$ 7 bilhões, é uma jogada de mestre — para além do que o impressionante número indica.

Se você não viu: ontem, dia 15, as duas empresas anunciaram um acordo de distribuição global de peso. Por mais de US$ 7 bilhões (o número exato não foi divulgado), a Netflix passa a ter a janela “pay 1” dos longas-metragens de cinema da Sony. Traduzindo: a plataforma de streaming passa a ter com exclusividade os filmes do estúdio cerca de seis meses após a estreia nos cinemas, exibindo-os por um período antes que eles sigam para outras janelas (incluindo a TV aberta).

No Brasil, hoje essa janela é da HBO e da HBO Max — mas ela está fragmentada pelo mundo, às vezes até dentro de um mesmo mercado. O acordo passa a valer a partir do fim deste ano e será implementado de forma gradual globalmente até o começo de 2029. O contrato termina em 2032.

O que vale o acordo Sony Netflix?

O valor e a dimensão do acordo são sem precedentes. Para você ter uma ideia, a Amazon pagou US$ 8,45 bilhões pela MGM — um estúdio inteiro — em 2021. Mais recentemente, a Skydance comprou a Paramount — um conglomerado de mídia que, além de estúdios de cinema e TV, tem as plataformas Paramount+ e Pluto TV — por US$ 8 bilhões.

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A Netflix vai pagar quase isso por cerca de 35 longas-metragens por ano — e nem será para tê-los para sempre em seu catálogo ou para controlar as propriedades intelectuais.

Por isso, esse é um golaço da Sony Pictures — estúdio que, lá atrás, foi visto com desconfiança justamente por não entrar na guerra do streaming. Preferiu não lançar o seu próprio serviço, focando em se tornar uma “distribuidora de armas” para quem se aventurasse nesse negócio.

Agora, vai receber — em uma absoluta conta de padeiro — cerca de US$ 30 milhões por filme, em média, até 2032. Isso sem se preocupar com um serviço direto ao consumidor, tecnologia, servidores, suporte, atendimento ao cliente, faturamento…

Mais do que isso: em um mundo no qual franquias e propriedades intelectuais têm muita força, essas produções podem ganhar tração na Netflix e catapultar futuras continuações na tela grande.

O lado ruim, claro, é a Sony atrelar o seu pipeline de lançamentos a apenas um canal numa janela importante. Mas os ganhos, bilionários, compensam. 

Pelo que a Netflix está pagando caro?

Não se engane: o jogo também é bom para a Netflix. Ainda que tenha pago caro por esses títulos, eles chegam após uma campanha forte de marketing nos cinemas, ainda fresca na memória do público, e podem “viver sozinhos” na plataforma. Muitos também são de personagens reconhecidos — incluindo o Homem-Aranha.

Ok, a plataforma não garante esses títulos para sempre, nem as IPs, mas também não precisa lidar com divulgação, produção, dívidas ou investimentos. Chega tudo pronto — e um equilíbrio saudável entre conteúdo original exclusivo e produções licenciadas de terceiros é peça-chave no momento atual.

Após fracasso nos cinemas 'Madame Teia' fez sucesso quando estreou na Netflix (Imagem: divulgação / Sony Pictures)
Após fracasso nos cinemas ‘Madame Teia’ fez sucesso quando estreou na Netflix (Imagem: divulgação / Sony Pictures)

Até alguns fracassos podem ser sucessos — basta ver o público que longas como “Madame Teia”, que foi detonado na tela grande e fracassou na bilheteria, movimentaram no vídeo sob demanda.

Mais do que tudo, a Netflix está tirando esse conteúdo dos concorrentes — que poderão tê-lo apenas depois que esse verniz de novidade já se desfez. O lado meio vazio do copo: isso diminui o catálogo premium disponível para terceiros, além de aumentar preços. 

Ah, sim: tudo isso, somado à recente declaração de Ted Sarandos de que pretende manter a janela de 45 dias da Warner Bros. nos cinemas, reforça que a telona ainda tem seu espaço e valor no mundo contemporâneo — mesmo que não seja, diretamente, no quanto é pago nos ingressos.