O scroll infinito mudou como as crianças veem vídeos

Se você trabalha com conteúdo, mídia, entretenimento — ou simplesmente tem filhos — vale prestar atenção nisso. 

A demanda por conteúdo infantil está crescendo, e não é pouco.

Um estudo encomendado pela Common Sense Media e analisado por Evan Shapiro mostra que, entre 2022 e 2025, a procura por produções digitais para crianças cresceu 176%. No mesmo período, o conteúdo para TV avançou 54%.

“Até aí, tudo bem”, como diz o outro.

O problema é o outro lado: enquanto a audiência sobe, a produção encolhe. O volume global de séries caiu de 445 títulos em 2021 para 315 em 2025. Nos streamings, a queda é ainda mais brusca.

 Leia tambémUma indústria que não para de demitir

O que acontece é que plataformas e canais tradicionais estão tirando o pé do investimento em animação e outros formatos para crianças. Na pressão por resultados financeiros, passaram a priorizar esportes e transmissões ao vivo.

É um cenário raro: mais crianças querem assistir, mas menos conteúdo está sendo feito para elas.

Mudou também onde e como esse consumo acontece. O YouTube agora lidera com certa folga o tempo de exibição entre crianças nos EUA, crescendo enquanto Netflix, Disney+ e outros ficam estáveis. E, mesmo sem aparecer nesses rankings, o TikTok definiu a lógica que organiza esse consumo: vídeos curtos, scroll infinito, sem começo nem fim.

Esse modelo não muda só o que as crianças assistem — o algoritmo passa a ditar também o tipo de conteúdo que consegue se manter de pé. Afinal, competir nesse novo ambiente não é só uma questão de qualidade, mas de ritmo, de formato e, no limite, de modelo de negócio.

Essa realidade está apertando quem produz, como me contou o Paulo Martini. Ele explica que fica complicado colocar uma série como “Bluey” para disputar atenção com um fluxo constante de vídeos de poucos segundos, muitas vezes feitos com processos simplificados ou até por IA.

Esse não é um problema apenas de uma indústria, mas de todo mundo. Afinal, as crianças estão em formação — e o que elas assistem ajuda a definir a forma como vão se relacionar com conteúdo, atenção (inclusive na escola) e, no limite, com o próprio mundo.

Escrevi sobre isso na coluna Na Sua Tela, no UOL. Clique aqui para ler.