O que o balanço da Netflix diz sobre a economia da atenção no streaming

Na era da economia da atenção no streaming, nem toda hora assistida vale a mesma coisa — e talvez esse seja o ponto mais revelador da carta aos acionistas que a Netflix divulgou hoje, dia 20, junto com seu balanço financeiro.

Antes de qualquer coisa, os números: a empresa fechou 2025 com 325 milhões de assinaturas pagas — número que a própria Netflix associa a uma audiência global que se aproxima de um bilhão de pessoas. 

Também reportou crescimento de receita e margem, aumentou a geração de caixa e usou o relatório para explicar a estrutura financeira da aquisição da Warner Bros., agora desenhada como uma transação integralmente em dinheiro — um recado direcionado tanto aos investidores quanto aos reguladores que ainda precisarão aprovar o negócio.

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Mas um dos aspectos mais interessantes da carta não está exatamente nas finanças, e sim na forma como a Netflix descreve o momento atual do streaming — e, por consequência, da economia da atenção e de seu próprio negócio.

Ao longo do texto, a empresa deixa claro que a lógica que guiou a última década começa a ficar para trás. Crescer indefinidamente em horas assistidas já não é o principal objetivo: o foco passa a ser aumentar o valor de cada minuto de consumo.

Isso aparece de forma bastante explícita quando a companhia afirma que busca “aumentar o valor de cada hora de engajamento” e reconhece que “nem todo consumo é criado da mesma forma”. Em outras palavras, nem tudo o que se assiste pesa da mesma maneira para o negócio — e, por extensão, para os anunciantes nos planos com publicidade.

Sede da Netflix em Hollywood: a empresa mudou o entretenimento com o streaming de vídeo, e impactou na economia da atenção no streaming
Sede da Netflix em Hollywood: a empresa mudou o entretenimento com o streaming de vídeo (Imagem: divulgação / Netflix)

A carta avança nesse raciocínio ao explicar que alguns títulos geram um nível de envolvimento, paixão e fandom com impacto desproporcional tanto para os usuários quanto para a empresa. Esse tipo de conexão, segundo o próprio texto, se traduz em maior satisfação, retenção mais alta e crescimento orgânico por recomendação — elementos muito mais estratégicos do que simplesmente inflar métricas de volume.

A mesma lógica aparece quando a Netflix fala de programação ao vivo. Embora represente uma parcela pequena do total de horas consumidas, eventos desse tipo são descritos como capazes de gerar entusiasmo e adesões desproporcionais, reforçando a ideia de que impacto não se mede apenas em tempo, mas em efeito.

No fundo, a carta ajuda a explicar uma mudança estrutural no streaming. O setor deixou de ser uma corrida por escala bruta e entrou numa fase em que o que importa é quanto valor — econômico, cultural e estratégico — cada hora consegue entregar. Em um cenário de competição crescente por atenção, que envolve não apenas outros streamings, mas também redes sociais, games, esportes e eventos ao vivo, esse deslocamento de foco faz sentido.

Por quê? Porque TikTok, PlayStation, CNN, ESPN, Globo e Netflix competem pelas mesmas 24 horas do nosso dia. Com o entretenimento audiovisual chegando a um limite de tempo disponível, a Netflix tenta afirmar que alguns minutos na sua plataforma valem mais do que longos períodos consumindo vídeos descartáveis, conteúdo gerado por IA em larga escala ou formatos de baixo valor agregado que dominam parte dos feeds atuais.