A disputa pela Warner Bros. Discovery teve mais um plot twist — e um decisivo. O conselho da companhia informou que a proposta revisada da Paramount Skydance constitui uma “oferta superior” ao acordo assinado com a Netflix, que decidiu não cobrir e jogou a toalha.
O que fez a Paramount avançar não foi apenas preço. O aumento para US$ 31 por ação importa, mas o que pesou foi a arquitetura do negócio. A proposta redesenha o risco: assume a multa para romper o acordo com a Netflix, cria compensações caso o fechamento demore por questões regulatórias, oferece proteção adicional aos acionistas e ajusta cláusulas para que áreas estruturalmente pressionadas — como os canais lineares — não distorçam a avaliação da companhia.
O timing ajuda a entender por quê. Os balanços divulgados nesta semana expõem as motivações dos dois lados. A Paramount reforça a tese de escala e integração como resposta à pressão estrutural do negócio de mídia, enquanto a WBD segue tentando equilibrar desalavancagem, transição do linear e a construção de um streaming sustentável. A venda, nesse contexto, não é apenas oportunismo financeiro — é uma forma de resolver tensões estratégicas que a companhia carrega desde a fusão com a Discovery.
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Para a Paramount, a justificativa é clara: ganhar massa crítica, consolidar propriedade intelectual e ampliar poder de negociação num mercado que já entrou em fase de consolidação. A proposta mais estruturada funciona como argumento industrial tanto quanto financeiro.
Do lado da Netflix, o mercado já vinha deixando claro o que esperava. As ações da empresa subiram depois que a Paramount voltou com força ao processo, interrompendo uma sequência de queda que vinha desde antes do anúncio do acordo com a Warner. Esse tipo de movimento costuma indicar que investidores veem mais risco em concluir a aquisição do que em abandoná-la — e que a existência de um rival cria uma saída possível.
A decisão anunciada agora formaliza essa leitura. A empresa afirmou que, no preço necessário para competir, a aquisição deixou de fazer sentido financeiro e optou por não apresentar uma contraoferta.
Em outras palavras, a proposta da Paramount não apenas elevou o preço do ativo: tornou a saída da Netflix uma escolha estratégica, e não um recuo.
Isso transforma a pergunta central. Deixa de ser quanto vale a Warner e passa a ser quem está disposto a assumir o risco de integrá-la neste momento, com o nível de complexidade regulatória, operacional e de capital envolvido.
A Netflix escolheu a disciplina e saiu da mesa. A Paramount aposta em escala e está assumindo o risco.
A disputa pela Warner se resolve, mas a segunda guerra do streaming segue em outro nível — o da escala, da integração e da disciplina de capital. Agora a história deixa de ser negociação e passa a ser execução.
Atualizado às 20h08 com a saída da Netflix.
