A Netflix é, hoje, uma grande força na indústria do entretenimento

Para a Netflix, streaming já não é o suficiente

A Netflix não quer mais ser vista apenas como streaming – e o resultado no balanço deste trimestre, que acaba de ser divulgado, deixa isso muito claro.

A empresa segue crescendo — receita +16%, margem acima de 32%, operação azeitada. Só que o ponto não está nos números, mas sim como a companhia descreve o próprio negócio. 

Agora, a Netflix deixa de se apresentar como um serviço de streaming para assumir um posicionamento mais amplo, que incorpora jogos, eventos ao vivo, podcasts em vídeo e até elementos de descoberta com dinâmica mais próxima de redes sociais, como o feed vertical que começa a aparecer no mobile.

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O app de games para crianças, lançado no começo do mês, entra exatamente nessa lógica. O objetivo é aumentar a frequência, retenção e, principalmente, pontos de contato ao longo do dia. O vídeo sob demanda vira só uma das portas de entrada.

E aí está a mudança mais relevante: o plano com anúncios já responde por mais de 60% das novas adesões nos mercados onde está disponível, e a empresa projeta chegar a US$ 3 bilhões em receita publicitária em 2026 — o dobro do ano anterior. Com isso, a Netflix deixa de ser apenas um negócio de recorrência e passa a operar, cada vez mais, como uma plataforma híbrida, combinando assinatura com publicidade em escala global.

Playground, novo app de games para crianças da Netflix
Playground, novo app de games para crianças da Netflix (crédito: divulgação / Netflix)

Nesse contexto, deixou de ser apenas sobre filmes e séries. O tabuleiro agora ficou assim: o conteúdo atrai, o produto retém, a distribuição escala e a monetização extrai valor.

Um exemplo interessante, especialmente para o mercado brasileiro, aparece quase de passagem na carta: a parceria com o Mercado Livre no Brasil e no México, que combina Netflix com programas de fidelidade do e-commerce. A empresa afirma com todas as letras que o combo aumentou a sua penetração – e, provavelmente, reduziu churn.

Há também um componente simbólico nesse momento. Reed Hastings, fundador e figura central na construção do negócio, deixará o conselho. Foi ele quem, lá atrás, ajudou a definir a empresa — inclusive com uma postura historicamente contrária à publicidade. A saída não muda a operação no curto prazo, mas reforça a transição. A Netflix de hoje é outra coisa. 

Nem tudo, porém, aponta na mesma direção. A própria empresa já indica que o ritmo de crescimento deve diminuir no próximo trimestre, enquanto a margem pode sofrer no curto prazo com o aumento dos custos de conteúdo. Na Europa e Oriente Médio, o avanço já perdeu força quando se olha sem o efeito do câmbio. O mercado captou o sinal: as ações caem nas negociações após o fechamento.

O primeiro trimestre de 2026 foi bom. Mas a leitura mais interessante não está no que a Netflix entregou, e sim no que ela está tentando se tornar.

O streaming já não define mais a empresa. É apenas o começo.

Talvez esse seja o ponto mais importante: o campo de batalha da segunda guerra do streaming já é muito maior.

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