O Oscar 2026 foi morno. Não porque o Brasil ficou sem nenhuma estatueta, nem porque “Pecadores” não levou o prêmio de Melhor Filme. Foi porque a festa evitou ser política.
Pelo segundo ano consecutivo, Conan O’Brien foi o apresentador. Contudo, em suas falas — principalmente na abertura — ele evitou abordar temas ligados ao cenário político-partidário do país, mesmo com os Estados Unidos envolvidos em guerra, tarifas e denúncias. Esse, aliás, é o seu perfil — mas neste ano o comediante foi ainda mais contido do que no ano passado.
Obviamente, em um momento ou outro Conan flertou com assuntos do tipo — mas mais como piadas curtas, não como tema de grandes trechos de sua fala.
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Ainda assim, tudo foi feito com cuidado. O apresentador fez piadas codificadas, sem citar Trump pelo nome — como quando ironizou a obsessão do presidente em batizar instituições culturais com seu nome ou mencionou os Arquivos Epstein, em que mudou o eixo da piada.
No restante da festa, manifestações políticas foram isoladas e contidas. O destaque maior foi Javier Bardem usando um broche escrito “no a la guerra”, pedindo o fim dos conflitos e uma Palestina livre.
Tivemos também a política aparecendo nas categorias de documentário, que naturalmente têm esse perfil. Ainda assim, nada que ganhasse manchetes.
Há alguns motivos para isso.

O primeiro, mais óbvio, é que há alguns anos a Academia prefere evitar entrar na política. Do ponto de vista estratégico, faz sentido: abordar temas locais pode alienar o público internacional, e cutucar feridas da polarização afasta parte da audiência.
Mas tem mais. O governo dos EUA vem pressionando para que a mídia se alinhe ao atual mandatário do país. Nos últimos dias, por exemplo, Brendan Carr, presidente da FCC — que regula as emissoras abertas — afirmou que canais que levam ao ar “boatos e notícias distorcidas” poderiam ter as licenças revogadas.
Na CBS, Stephen Colbert — apresentador de talk show, como Conan — não terá o contrato renovado neste ano, deixando a grade do canal. Colbert é crítico ao governo Trump, e a decisão teria ocorrido na esteira da aprovação da compra da Paramount (dona da emissora) pela Skydance.
Na ABC, que transmite o Oscar, outro apresentador passou por problemas. Jimmy Kimmel fez piadas em seu programa com o MAGA e o assassinato de Charlie Kirk, e Carr também ameaçou revogar a licença da emissora. Além disso, dois grandes grupos de afiliadas tiraram o Jimmy Kimmel Live! do ar. O canal, que é da Disney, chegou a suspender a exibição por alguns dias — até que a situação fosse resolvida.
Curiosamente, mesmo por poucos minutos, a presença de Kimmel no palco foi o momento de maior apreensão política da noite. Ele provocou a neutralidade de Conan, dizendo que por um instante achou que ele próprio estava apresentando o Oscar.
No Judão e aqui no blog, disse na última semana que este era o Oscar mais sombrio em décadas. Contudo, quem esperava ver isso refletido em discursos mais inflamados ficou frustrado.
Mas não existe algo mais assustador e sombrio do que o medo de dizer o que se pensa.
