The Walt Disney Company anunciou mais uma rodada de demissões — ou layoffs, como muitos preferem — nesta semana. Não é a maior, nem foi a primeira. Olhando para o histórico recente, dificilmente será a última.
Se isso fosse só sobre a Disney, era fácil explicar, mas não é. Esse é um padrão nas indústrias de entretenimento, comunicação e jornalismo nos últimos anos – e continuará sendo.
Com base em um levantamento do Deadline, cruzando os cortes que vieram a público desde 2024, cheguei em uma estimativa conservadora de algo entre 15 mil e 20 mil vagas eliminadas, considerando apenas a mídia dos EUA e suas subsidiárias pelo mundo.
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Provavelmente é mais, já que há casos sem números claros, demissões pulverizadas, funcionários que pedem demissão ao serem pressionados a deixar o home office e organizações menores ou regionais que operam abaixo do radar.
Esse número, por si só, já conta uma história, mas ela não é a única.
A partir dos anos 2010, a lógica do entretenimento foi contratar para crescer. Ganhar escala, ampliar catálogo, ocupar distribuição, testar formatos. Em algum momento, isso deixou de ser sustentável — ou, no mínimo, deixou de ser suficiente. A conversa mudou, os investidores pressionaram e a margem passou a importar mais do que volume.
Ao mesmo tempo, a conta que sustentou boa parte da mídia digital na década passada parou de fechar. Dependência de plataformas, publicidade pressionada, audiência fragmentada. O Google mudou — e levou junto o modelo de SEO no qual muitos veículos se ancoraram.
Foi uma quebra de paradigma.

No streaming, a mudança é ainda mais perceptível. O que nasceu como narrativa de tecnologia virou, na prática, um negócio de mídia com custo alto e competição brutal. Crescer assinantes já não resolve sozinho: é preciso dar retorno.
Tem também um fator constante: fusões. Disney com a Fox, Skydance com a Paramount, Warner Bros. com Discovery… Elas prometem sinergia, mas entregam sobreposição — e essa conta nunca é paga de uma vez. Vai sendo diluída em cortes ao longo dos anos.
Por trás de tudo isso, a reorganização da própria cadeia de valor. A distribuição mudou de mão. A atenção também. Isso redesenha o tamanho — e o papel — das estruturas no meio do caminho. Faz sentido manter, por exemplo, a mesma estrutura na TV paga?
Isso sem falar da inteligência artificial. Não que a IA substitua tudo de imediato, mas ela muda a relação entre volume, custo e equipe necessária. O que antes exigia times maiores, agora passa a ser feito com estruturas mais enxutas.
Nada disso, isoladamente, explica o volume de demissões. Juntos, mostram que elas deixaram de ser exceção — especialmente quando cortar custo ajuda a fechar melhor o trimestre.
E aí tem o outro lado, que não aparece nos comunicados: milhares de profissionais tentando se reposicionar enquanto o mercado redefine o que valoriza, o que paga e, principalmente, o que ainda precisa existir.
Essa talvez seja a parte mais difícil de medir, e a mais relevante de acompanhar.
