Imagine pagar US$ 60 milhões para Meghan Markle e o príncipe Harry produzirem filmes e séries — e, seis anos depois, ter duas produções não roteirizadas, nenhum projeto de ficção e apenas 23 episódios no total.
Foi isso que aconteceu com a Netflix.
O acordo que a empresa fechou com o casal em 2020 fazia sentido dentro de uma lógica que dominava o mercado naquele momento: colocar dinheiro na mão de nomes conhecidos, capazes de gerar atenção imediata, mesmo que isso implicasse assumir riscos relevantes.
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Apesar da visibilidade global, Meghan e Harry nunca tinham produzido nada. Ainda assim, houve disputa entre plataformas, e a Netflix decidiu apostar alto.
O problema é que essa lógica não desapareceu quando o dinheiro encurtou: ela se intensificou.
Com investidores cobrando resultado e menos margem para erro, o mercado passou a reduzir risco — mas não abrindo espaço para novas vozes, e sim concentrando ainda mais investimentos em quem já é conhecido. Ao mesmo tempo, as portas para quem tenta entrar ficaram mais estreitas, com menos episódios, menos oportunidades e um funil cada vez mais estreito para quem está começando agora.
O movimento deixou um vácuo para novas vozes.
Como o vácuo não existe, esse espaço passou a ser ocupado pelo YouTube, uma plataforma que cresceu, entre outros fatores, ao dar alcance a novos nomes dentro de uma lógica de cauda longa. Hoje, o serviço do Google responde por 22% de todo o consumo de vídeo em telas no Brasil, segundo o Ibope — mais de três vezes a TV paga e à frente da própria Netflix, além de avançar na televisão, território que sempre foi central para seus principais concorrentes.
No fim, o contrato com Meghan e Harry deixa de ser apenas uma história sobre um acordo que não funcionou. Ele ajuda a explicar uma mudança mais ampla: como o dinheiro passou a ser alocado na indústria, quem ficou com acesso a ele — e quem acabou ficando de fora.
Escrevi sobre isso na minha coluna no UOL, a Na Sua Tela.
